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Ref :  000000814
Date :  2001-05-02
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Alternativas
Alternativas
Author :  Laura Brondino


No Quebec, a atitude dos chefes de Estado diante da contestação foi a de calar-se sobre a existência de uma oposição estruturada ou de fazer alusão apenas à violência dos opositores da rua. Em todo caso, tratou-se de desqualificar a priori a oposição: porque ela só saberia dizer "não", ou porque as propostas elaboradas pelos participantes da 2ª Cúpula dos Povos, os "representantes da sociedade civil", não constituiriam um modelo que possa ser aplicado ao continente de modo a integrá-lo. Em outras palavras, sua multiplicidade produziria um "blá-blá-blá" (Jean Chrétien, Primeiro ministro do Canadá) que não chegaria a constituir uma alternativa ao programa neoliberal.

Na verdade, na Cúpula dos Povos, trabalharam juntas uma multidão de organizações de todo tipo em torno de uma integração continental equitável e democrática. Mas isto não constitui um programa pré-definido, que se possa repetir invariavelmente em todos os países e áreas, como é o caso para os 34 chefes de Estado que parecem identificar a democracia ao livre comércio. Os "Povos" não têm programa, mas uma multiplicidade de projetos que são inicialmente experimentados em nível local e em áreas muito diferentes. Tratou-se, para eles, de religar o global ao local, de partir de situações concretas para enfrentar o neoliberalismo que se impõe a todos. Na Cúpula dos Povos, e mesmo antes, eles "globalizaram" seus projetos ligando-os a outras situações "locais", fazendo dos seus projetos propostas para os outros.

Isto nos revela pelo menos duas características emergentes da "globalização dos povos". Por um lado, existe efetivamente, inicialmente, uma incerteza constitutiva: nenhuma experiência, nenhum projeto valem no absoluto. Principalmente, nenhum deles pretende ser uma realidade capaz de ser erigida como modelo para todos os outros, e cada um se apresenta como uma resposta singular, numa área e numa situação singulares. Nenhum projeto sabe, portanto, qual é o melhor dos mundos possíveis; e, ao contrário, cada um é fator de um processo aberto. Por outro lado, na troca de propostas, e precisamente porque nenhuma delas é um modelo, a multiplicidade sendo a regra, não se pode demonstrar a segurança e o otimismo dos 34 partidários da ALCA. É que a "globalização pela base" renunciou a forjar um modelo de progresso, ela não sabe onde vai, ela só pode, portanto, ficar inquieta. Mas é precisamente nessa incerteza que ela encontra a capacidade de pensar outra coisa, de pensar uma criação, ao invés da repetição da mesma coisa. Porque nada é fixo a priori, todo esforço recai sobre a exploração da novidade e de áreas desconhecidas pelo modelo em vigor (o da rentabilidade).

A incerteza é fundamentalmente subversiva, e isto só pode inquietar os convictos da ALCA. Se a Cúpula dos Povos constituía a Alternativa, com a segurança do progresso através da aplicação continental de um modelo, ela não passava de um adversário dos chefes de Estado. Ela seria apenas um oponente, um modelo oposto, mas responderia, em última instância, à mesma lógica que a dos chefes das Américas: a da homogeneização, num sistema fechado, em detrimento de uns e em benefício dos outros. Sua incerteza, quanto a ela, desconstrói a própria idéia de um modelo uniformemente "eficaz": na raiz da mudança, existe uma abertura fundamental, uma multiplicidade irredutível. Em sua declaração final, a Cúpula dos Povos afirmou que trabalha não por uma outra América, mas por "outras Américas": para não se fechar ao que é outro, para continuar a poder imaginar e inventar. É isto que faz medo ao modelo neoliberal: não que haja uma alternativa, mas alternativas, porque sua multiplicidade não é o sinal de uma desorganização ou de uma incapacidade para se coordenar, mas sim de sua força, e o testemunho das perspectivas que elas abrem.

Ao presidente Fox, portanto, e àqueles (dentre os quais os chefes de Estado presentes à Cúpula) que aplaudiram seu "México Nuevo", essa vanguarda da integração dos pobres do continente, pode-se lembrar que não basta, como ele fez em sua entrevista coletiva de 20 de abril de 2001, retransmitir num telão o abandono de algumas bases militares ao Chiapas, e declarar que, uma vez cumprida uma das três condições exigidas pelo EZLN para a retomada do diálogo, a paz já está de volta. Será que ele acreditava realmente que isto encerraria definitivamente o ciclo das alternativas? Convidando o Chiapas ao Quebec, como prova de que o neoliberalismo erigido em programa é fator de paz (deve-se entender: paz, fim da contestação), Fox, ao contrário, confirmou o alcance continental da oposição zapatista ao protótipo do "México Nuevo" e do seu apelo à sociedade civil: "Não estamos propondo um mundo novo, apenas sua prefiguração. A anticâmara do Novo México". A subversão da "alternativa dos povos", está nessa antecâmara, a saber, na consciência de que o processo para um mundo novo continua aberto, que ele deixa "um resto" e que é precisamente aí que se forjam as outras Américas. Para Fox, esse 20 de abril era "histórico", pois ele remetia a alternativa a um passado acabado, invalidado pela democracia da ALENA. Mas o Congresso Nacional Indígena estava no Quebec, com os outros "representantes da sociedade civil", para que a História continue e para colocar em prática o grito da comandanta zapatista Yolanda às sociedades civis do mundo inteiro: "Organizem-se melhor!".


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