Ref. :  000012340
Date :  2004-03-22
Language :  Portuguese
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Pensamento Alternativo

Pensamento Alternativo

Author :  Hugo Biagini


Como resposta ao processo e à ideologia da globalização, o chamado pensamento alternativo cresceu aceleradamente sob o impulso de diferentes organizações civis e como objeto particular de estudo. Pode-se imaginar um glossário experimental onde tal pensamento aparece ligado a uma gama de conceitos opostos: pensamento progressista versus reacionário, emergente vs. hegemônico, aberto vs. autoritário, libertário vs. dominante, conscientizador vs. doutrinário, utópico vs. distópico, includente vs. excludente, igualitário vs. discriminatório, crítico vs. dogmático, humanizador vs. alienador, autônomo vs. oficial, intercultural vs. monocultural, pluriétnico vs. etnocêntrico, ecumênico vs. chovinista, popular vs. elitista, nacional vs. colonial, formativo vs. acumulativo, solidário vs. narcisista, comprometido vs. indiferente, reformista vs. conservador, revolucionário vs. tradicionalista, aglomerador vs. reducionista, contestatário vs. politicamente correto, dissidente vs. totalitário, principista vs. fragmentário, autogestionário vs. verticalista, ensaísta vs. tratadista, resistente vs. intransigente, universal vs. insular, identitário vs. homogêneo, de gênero vs. sexista, pacifista vs. gladiatório, plebiscitário vs. tecnocrático. Esta tipologia atende às exigências multisetoriais e ao desafio de reescrever nossa memória coletiva junto à necessidade de reatualizar os grandes projetos humanistas que buscavam o aperfeiçoamento geral.

Um enfoque pode distinguir nitidamente o alternativo como aquilo que tende a afastar-se de propostas alienantes sem supor, a rigor, uma saída ou construção propositiva. Em outro registro, dá-se um sentido mais amplo às modalidades alternativas, para designar tanto as atitudes contestatárias como as postulações reformistas e os enquadramentos que postulam a mudança de estruturas. Por exemplo, diante de um assunto crucial como o da propriedade privada, foram adotadas várias posições: a) uma opção problematizadora a respeito da sua validade universal e como direito imprescritível; b) uma postura restritiva, de validá-la enquanto se estabelecem limites para a acumulação material; c) uma condenação absoluta, por considerá-la uma manifestação do despojo comunitário; d) uma perspectiva tendendo à sua socialização. Um denominador comum entre utopismo e alternatividade englobaria aquelas linhas intelectuais que impugnam o establishment, aspiram a modificar profundamente a realidade e a guiar a conduta até uma ordem mais eqüitativa. Apesar da amplitude da visão do pensamento alternativo, não entrarian formalmente dentro da nossa classificação algumas manifestações da pós-modernidade ou da New Age que recaem na frivolidade e no afã possessivo ou em desvios esotéricos. Contudo, integram às vezes nosso campo outras orientações concomitantes, como as da educação, da economia, das terapias ou das tecnologias alternativas, enquanto que o alternativo também implica a capacidade de imaginar o maior número de soluções para um determinado problema.

Um grande número de organizações civis empunha atualmente o emblema do pensamento alternativo: desde universidades que organizam seminários em torno desse tema, ou que o incorporam como temática acadêmica, até movimentos sociais como o dos ambientalistas e o de direitos humanos, ou diversas correntes políticas radicalizadas. Distintos empreendimentos são montados, por sua vez, expressamente a partir da idéia de elaborar ou de respaldar propostas divergentes do paradigma consumista depredador. Assim, o Prêmio Nobel Alternativo é concedido pela Fundação para o Correto Modo de Vida, criada em 1980 pelo germano-sueco Jakob von Uexkull, que quiz honrar as tarefas em prol da Humanidade, outorgando-lhes esse importante prêmio, no Parlamento Sueco, antes da entrega do Nobel, a lutadores sociais e ante-armamentistas, a defensores da biodiversidade, a comunidades indígenas, a partidários de uma agricultura orgânica que permita aceder gratuitamente à alimentação, a propiciadores de leite materno e contra a sua comercialização artificial etc. Um dos premiados com o PNA mais destacáveis foi o jurista paraguaio Martín Almada, que em dezembro de 1992 descobriu os Arquivos do Terror, duas toneladas de documentos sobre a Operação Condor, que deu origem aos serviços repressivos das ditaduras militares do Cone Sul. Com uma reunião constitutiva em Montreal, em dezembro de 2002, foi criado o Fórum Mundial das Alternativas, com sede provisória em Dakar; em seu manifesto inicial pode-se ler que o destino da Humanidade está em jogo e que está na hora de reverter o curso da História, colocando os avanços científicos, técnicos e econômicos a serviço das grandes maiorias; que também já está na hora de derrubar o muro entre o Norte e o Sul, de encarar a crise de civilização, de repudiar o poder do dinheiro, de transformar o cinismo em dignidade e a dignidade em poder, de reconstruir e democratizar o Estado, de ser verdadeiros cidadãos, de fortalecer os valores coletivos, de despertar a esperança dos povos; que já está na hora da convergência das lutas, dos saberes, das resistências, dos espíritos, dos corações, de que um pensamento criador e universal se abra diante de nós; até concluir pelo último, que a hora da ação já começou e que já chegou o momento de constituir um fórum dos fóruns dispersos no mundo inteiro.

Outra entidade, o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre as Mundializações (GERM), colaborou com a nobre e extensa causa do enfrentamento das políticas e interesses recobertos pela ideologia deshumanizadora da globalização financeira: o neoliberalismo, ou seja, o discurso mais firmemente estruturado e consolidado em meio à crise das concepções totalizadoras. Pode-se citar dois exemplos da ação do GERM. Por um lado, o lançamento de um dicionário que contribui para questionar a globalização dos mercados, a macdonaldização da cultura e o pensamento monocórdico, sem deixar de encorajar uma mundialização mais genuína: a da justiça e da inclusão, concordando com as teses que se formulam num macro-espaço como o de Porto Alegre, onde se tenta reunir os movimentos contestatórios, com seus projetos transformadores e suas variantes identitárias. Também cabe mencionar o intenso simpósio transdisciplinar e intercontinental realizado em Paris pelo GERM, sobre a diversidade cultural, com o objetivo de oferecer uma maior embasamento ao documento sobre esse tema lançado por organismos representativos como a UNESCO, em seu afã de afastar-se dos discursos marcadamente ocidentalistas que constituem o apoio cultural do triunfalismo econômico neoconservador de ajuste dos mais fracos, e sua versão simplificadora das culturas periféricas enquanto mero reflexo do Atlântico Norte.Entre os assuntos que se discutiu durante esse evento parisiense, procurou-se conjugar o humanismo na diversidade.
Como conclusão, o pensamento alternativo vinculou-se a uma cultura da resistência na qual grandes lutadores sociais, guiados por um pensamento emancipador, mantiveram uma gama de instâncias alternativas que seguem de pé como desafios fundamentais para a construção de novas utopias e a formação da nossa identidade: estamos aludindo ao valor dos princípios e à retidão de procedimentos, à importância da justiça e à eqüidade diante de modelos possessivos e depredadores, à busca de uma efetiva organização democrática e à necessidade de avançar francamente nos processos de integração regional.


BIBLIOGRAFIA:
Ainsa, F., La reconstrucción de la utopía, Buenos Aires, Del Sol, 1999;
Biagini, H.E. y Roig, A.E., (directores), El pensamiento alternativo en la Argentina contemporánea, B. Aires, Biblos, 2004;
Biagini, H.E., ?El filosofar latinoamericano como pensamiento alternativo?, in Mauricio Langon (coord.), Homenaje a Carlos Mato, B. Aires, FEPAI, 2004, pp. 145-153;
Cerutti Guldberg, H. y R. Pérez Montalbán (coords.), América Latina: Democracia, pensamiento y acción. Reflexiones de utopía, México, UNAM, 2003.


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